domingo, 27 de agosto de 2017

Roberto Stefan Foa and Yascha Mounk detalham, no artigo The Danger of Deconsolidation, os acontecimentos relacionados às alterações na percepção e na defesa dos ideias associados às democracias ocidentais. A leitura do minucioso trabalho dos pesquisadores, não deixa de ser um alerta tenebroso dos tempos coevos. A partir de gráficos e de entrevistas, ambos apresentam um cenário de declínio da representatividade e da liderança deste tipo de governo no Ocidente. Ao introduzir o assunto, os autores recordam que antes da queda da URSS ninguém, nem o mais atento analista das relações internacionais, apostaria num colapso tão dramático como o soviético. A analogia está lançada: estaria o regime democrático que vicejou no mundo ocidental do pós-Segunda Guerra Mundial ameaçado? Em caso positivo, qual seria esta ameaça? Na Europa e nos Estados Unidos os líderes políticos perderam muito de seu prestígio e, a partir dos anos 80, aumentam exponencialmente o número daqueles que defendem ações cada vez mais autoritárias e, sobretudo, desvinculadas de personagens que façam parte do campo político. Surgem, desta maneira, os perfis "apolíticos", de personagens cada vez mais sombrios, como foi o caso de Donald Trump, por exemplo. Houve alterações significativas na maneira como os jovens se relacionam com a política ao longo do tempo. Entre os anos 80 e 90, os valores democráticos eram entendidos como pilares da vida norte-americana. Hoje, todavia, são os jovens que alimentam discursos cada vez mais virulentos e de ódio. Roberto Stefan e Yascha Mounk enumeram três características chave para compreender o grau de consolidação de uma democracia: o apoio popular para este sistema de governo; a falta de partidos que o minem e a aceitação das regras democráticas. Para eles, em um mundo onde há um apoio fervoroso à democracia, onde partidos que são contra o sistema são marginais ou inexistentes e há um respeito pelas forças que regulam o jogo político, o colapso desta forma de governar dificilmente ocorre. Entretanto, concluem eles, o mundo contemporâneo em nada se parece com esta descrição. Portanto, é preciso que os cientistas políticos analisem a conjuntura atual de modo a compreender em que lugares esta "desconsolidação democrática" está acontecendo afim de não repetir os equívocos interpretativos de 1989-1991. No caso brasileiro, os inúmeros escândalos de corrupção, a orquestração do golpe de 2016 e o surgimento de personagens alheios ao universo político ou, ainda, de candidatos às eleições de 2018 cuja plataforma assemelha-se a um retorno aos piores momentos da trajetória política do país, guarda muitas semelhanças aos processos descritos pelos autores como desagregadores do sistema. A jovem democracia brasileira e sua Constituição Cidadã de 1988 são vítimas de constantes ataques nas mídias sociais e no Congresso Nacional. Inúmeras personalidades já se referiram ao regime democrático brasileiro como um dos mais sólidos do continente. Aqui, este era um sistema de governo consolidado por  meio do respeito às eleições diretas e livres. Ao que tudo indica, esta tessitura foi rompida no ano passado e  hoje o país vive o ocaso de "uma democracia sem povo", como destacou recente artigo do jornal El pais.

sábado, 4 de fevereiro de 2017


O novo livro de Robert Darnton, lançado no Brasil em abril de 2016 pela Companhia das Letras, tem muito a acrescentar ao debate historiográfico sobre a censura. Em primeiro lugar, destaque-se que a temática sempre remete à articulações com a ditadura e demais regimes autoritários como característica e prova da violência aos direitos fundamentais dos cidadãos erigidos durante e combatidos pelos inimigos da Revolução Francesa. Todavia, Darnton demonstra que além de balizar e matizar a censura é também necessário entender seu funcionamento e suas práticas. O resultado dessa assombrosa pesquisa é uma obra em que o leitor acompanha o trabalho do censor pari passu com as consequências para escritores e leitores. Os cenários são os mais distintos possíveis: a França dos Bourbons, a Índia britânica e a Alemanha Oriental. Por todos eles perpassam os tentáculos do Estado cuja preocupação com a publicação de obras contrárias aos governantes ou mesmo ofensivas à moral mobilizavam imenso contingente de censores. Leituras, prisões, averiguações, investigações, foram processos que, ao longo do tempo, se fizeram presentes nos lugares pesquisados pelo autor. A leitura da obra de Darnton além de enriquecer a compreensão sobre uma problemática tão complexa instiga reflexões sobre esta mesma questão no Brasil, onde as relações entre imprensa e Estado foram muito conturbadas. Trata-se, como se pode notar, de uma obra muito valiosa não apenas para pesquisadores que se debruçam sobre a galáxia de Gutenberg mas também para o público não especializado que pretende conhecer um pouco mais da história da França, da Índia e da Alemanha e de suas idiossincrasias.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O novo livro organizado por mim e pelo querido amigo Rodolfo Fiorucci está na base SUDOC, da França. Ela reúne mais de dez milhões de obras e documentos daquele país e do mundo todo. 
http://www.sudoc.abes.fr/DB=2.1/SET=2/TTL=3/PRS=HOL/SHW?FRST=3

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Costumes em comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional, de E. P. Thompson

Esta obra é, indubitavelmente, um dos maiores clássicos da historiografia contemporânea. Inúmeras vezes, lendo artigos, revistas ou mesmo outras obras, me deparava com o livro do historiador britânico E. P. Thompson. Resolvi que já era tempo de conhecer o volume como um todo e fugir da tentação de ler fragmentos cujos títulos me pareciam mais aprazíveis. Em primeiro lugar, trata-se de um livro muito bem escrito e embasado em extensa pesquisa bibliográfica e de fontes. Os temas foram divididos em 08 capítulos sendo destaque, no meu ponto de vista, os intitulados "Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial" e "A venda de esposas". No primeiro deles, Thompson demonstra como a fábrica rompe com a estética e com a compreensão que as pessoas possuíam acerca do tempo e do espaço. No outro, demonstra a prática de venda de esposas na Inglaterra, fato que chocava os vizinhos franceses. Concomitantemente, o autor consegue escrever sobre um tema eminentemente econômico e outro que passa pelas vias da cultura dos cidadãos britânicos daquele período. O livro de E. P. Thompson conta ainda com uma galeria de imagens que servem para ilustrar as temáticas explanadas pelo historiador. Um livro para aqueles que desejam aprender um pouco mais sobre o universo fabril mas também sobre rituais musicais e venda de esposas. Leitura essencial para conhecer melhor as dinâmicas deste período revolucionário.

Forjando a democracia: a história da esquerda na Europa, 1850-2000, de Geoff Eley.

O livro do historiador britânico Geoff Eley é um daqueles trabalhos que refletem anos de pesquisa e dedicação a um mesmo tema. Escrito ao longo de 20 anos, a obra que versa sobre a evolução da esquerda na Europa foi apresentada ao público brasileiro pela Fundação Perseu Abramo, em 2005. Composta de 27 capítulos que se desdobram pelas 766 páginas, a obra apresenta o panorama das lutas, derrotas e conquistas dos movimentos de esquerda ao longo do tempo. O autor se dedica a destrinchar as lutas intestinas entre socialistas, comunistas e anarquistas além de traçar um cenário sobre a lenta emancipação das mulheres, desde o universo das fábricas até o terreno da política. De acordo com ele, os movimentos de esquerda tiveram um papel fundamental nas conquistas de direitos além de representar um arauto de defesa da democracia. Geoff Eley não contorna o fantasma do stalinismo que, para muitos, representa terreno nebuloso da história do movimento comunista. Pelo contrário, aponta os crimes cometidos por Stalin e seus asseclas e demonstra como este período parece desviar a trajetória do comunismo por uma senda que não era a dele. A descrição dos embates contra fascismo e nazismo ao longo das décadas de 1930 e 1940 constituem pontos fortes da obra, muito bem fundamentada no que diz respeito à historiografia e às fontes. Aliás, neste último aspecto, o leitor encontrará uma densa e longa lista de obras para consultar, caso seja instigado a se aprofundar em alguma temática. Para o estudioso dos movimentos de esquerda e para aqueles que desejam compreender melhor o período esta obra parece ser uma excelente companheira.