segunda-feira, 21 de abril de 2025

MODERNIDADE E HOLOCAUSTO, de Zygmunt Bauman

 




Um livro perturbador. Necessário. Poderoso. Especialmente no que se refere às mistificações todas presentes no tema aqui debatido, Bauman é incisivo em destruir cada pilar que sustenta, até hoje por sinal, as fake news e as convenientes acomodações da memória. O sociológo polonês discorre sobre o Holocausto e sua relação com a Modernidade em sete capítulos e finaliza a obra com uma pós-reflexão, na qual aborda a racionalidade e a vergonha. Ainda que o leitor especializado tenha lido a quase totalidade dos autores citados aqui, ainda que tenha familiaridade com a historiografia do holocausto mesmo assim, o brilhantismo e as questões certeiras levantadas por Bauman enriquecem sobremaneira o estudo sobre o tema e, sobretudo, lança luz sobre questões pouco abordadas tanto na História quanto nas disciplinas irmãs, como a Sociologia e a Antropologia. Os estudos sobre a natureza social do mal, a retomada que o autor faz dos apontamentos de Hannah Arendt, e a discussão sobre a moralidade são o ponto alto do livro. Um exemplo que pode ser citado e que de certa forma sintetiza toda a obra é o da discussão sobre o caminhão que deveria ser utilizado para o assassínio de judeus em territórios soviéticos. Citando Christopher Browning, o autor destaca: Um caminhão menor, totalmente carregado, poderia operar muito mais rápido. Uma redução do compartimento traseiro não afetaria prejudicialmente o equilíbrio de peso, sobrecarregando o eixo dianteiro, porque 'na verdade ocorre automaticamente uma correção na distribuição de peso pelo fato de que a carga, na sua luta para abrir a porta traseira durante a operação, situa-se preponderantemente ali'. Pelo fato de que o tubo de conexão logo se enferrujava com os 'fluidos', o gás deveria ser introduzido de cima, não de baixo. Para facilitar a limpeza, deveria ser feito um orifício de oito a doze polegadas no chão, com uma tampa aberta por fora. O chão deveria ser ligeiramente inclinado e a tampa equipada com uma pequena peneira. Assim, todos os 'fluidos' fluiriam para o meio, os 'fluidos finos' sairiam ainda durante a operação e os 'mais espessos' poderiam ser tirados com mangueira depois...Bauman inicia o livro afirmando que foi o assombro trazido pela obra Inverno na Manhã, de sua companheira Janina Bauman, que o trouxe para o campo traumático dos estudos sobre o Holocausto. Ao finalizar o livro, o leitor tem a convicção de que ao debruçar-se sobre a temática, o sociólogo polonês contribuiu de forma magistral para os estudos sobre o período. Seja continuando discussões de grandes nomes desde debate, seja por lançar novas e perturbadoras questões, a obra Modernidade e Holocausto torna-se incontornável para leigos e estudantes da área de ciências humanas.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

NECROPOLÍTICA, de Achille Mbembe


Um ensaio de setenta páginas. Uma ideia a explicar. E por meio dela, perpassam diversas teorias e conceitos complexos das Ciências Humanas. Tal é o resultado da reflexão que Achille Mbembe propõe nesta obra fundamental para a compreensão da modernidade. O autor, que dialoga com a filosofia de Hegel e avança até Guatarri, discorre sobre a necropolítica a partir da conjugação de um tríplice olhar: o primeiro sobre o conceito de biopoder, de Foucault; o segundo sobre o estado de exceção e, por último, sobre o Estado de sítio. O arcabouço dessa perspectiva discorre sobre os acontecimentos político-sociais que se ampliam desde a Colonização até o Campo de Extermínio nazista e nas questões envolvendo palestinos e israelenses na contemporaneidade. No que se refere ao mundo colonial, o autor destaca que o sistema de plantation impõe ao escravo "uma tripla perda: perda de um 'lar', perda de direitos sobre seu corpo e perda de estatuto político". A partir de análises com essa densidade, é possível recorrer à historiografia do Brasil Colonial e estabelecer inúmeros diálogos com o livro de Mbembe. No que se refere à temática dos Campos de Concentração nazista, ainda que o autor deixe claro que eles não seriam o ponto fulcral da obra, há uma rica discussão sobre as rupturas e permanências presentes na construção deste espaço para a morte, dialogando com autores como Saul Friedlander, Enzo Traverso e Hannah Arendt. O diálogo com a produção acadêmica de temas tão diversos quanto o Atlântico negro e o Holocausto tornam o livro de Mbembe uma referência essencial no campo de estudo das políticas para o assassínio,  forjadoras da modernidade. 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

1939: contagem regressiva para a guerra, de Richard Overy

Um livro essencial para quem deseja reviver, dia a dia, instante a instante a atmosfera de elevada pressão que antecedeu à eclosão da Segunda Guerra Mundial. O autor, renomado pesquisador sobre o período, elenca nos capítulos, as tomadas de decisões dos diferentes líderes envolvidos na escalada para o conflito bem como delineia a intensa teia de interesses que atravessa cada uma das nações. No panorama reconstruído por Overy, Hitler, Chamberlain, Daladier, Stalin e Beck (dentre outros líderes poloneses) são mostrados ao leitor com todas as suas características e objetivos principais. O autor não hesita em destacar cada uma das lideranças dentro dos contextos de crise e evidencia como cada um deles trata a situação analisada. O autor divide o livro em capítulo curtos, cada um deles tomando um espaço de alguns dias (24-26; 27-31; 1-3; 3) e uma conclusão que questiona: Por que a guerra? A pequena obra conta ainda com rica bibliografia que auxilia o leitor que deseja conhecer melhor esse período histórico tão profundo em transformações e arranjos-rearranjos políticos. O que se vê, ao longo destes poucos dias, é uma intensa negociação que perpassa todas as instituições das nações envolvidas bem como, não raras vezes, a atuação de indivíduos que buscam, sozinhos, uma mediação para os mais distintos interesses em jogo. O cenário para o desenvolvimento do drama, é o destino da Polônia, Estado recriado pelos vencedores no pós-guerra e a quem Hitler ameaça com uma invasão ao exigir a incorporação ao Reich da cidade livre de Danzig. O livro, apesar de curto, toca em pontos sensíveis para a historiografia do período e enfrenta com muita clareza os debates entre aqueles que acreditavam que Hitler desejava criar um império mundial ou uma área de influência à leste às expensas da URSS, tese à qual Overy se filia. Sobre o destino da Polônia, o autor apresenta uma das melhores sínteses: "A verdade gradualmente ficou clara para a liderança polonesa: o Ocidente jamais pretendera lutar em sua defesa", e sentencia, de maneira brilhante: "Como se viu depois, a Polônia foi traída pela guerra assim como a Tchecoslováquia foi traída pela paz". 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

La Dictadura Nazi: problemas y perspectivas de interpretación

O livro do historiador britânico Ian Kershaw é um excelente guia para os interessados neste tema tão complexo que é o nazismo e seus significados. A obra é composta por dez capítulos que versam sobre questões diversas do regime tais como: a essência do nazismo: uma forma de fascismo, um tipo de totalitarismo ou um fenômeno único? ou ainda, Hitler e o Holocausto...Kershaw não se furta também a inserir um debate sobre as perspectivas historiográficas no período posterior à unificação para apresentar aos leitores as mudanças de perspectivas de análise ocorridas ao longo do tempo. Os pontos discutidos por Kershaw nesta obra a torna uma leitura indispensável aos estudantes do século XX pois eles se relacionam com os fenômenos que marcaram os anos 1930 e 1940 cujas consequencias se fazem sentir até a atualidade. Sobretudo merece destaque a densa e rica bibliografia comentada pelo autor ao longo do trabalho e suas notas sobre os assuntos em debate. Os problemas e as perspectivas de interpretação deste movimento político são elencados e esclarecidos pelo estudioso que não deixa de apontar qual o caminho ele pensa ser o menos controverso para o enfrentamento dos objetos de pesquisa que se vinculam ao regime alemão. Longe de tentar apreender os acontecimentos por meio de uma chave de análise simplista, Kershaw discorre sobre os intrincados eventos recordando que "a questão de distribuir culpas, pois, ofusca a verdadeira pergunta que o historiador tem que responder: precisamente como foi que o genocídio chegou a ocorrer, como foi que um ódio desequilibrado, paranóide e uma visão milenar se converteu em realidade e foi implementada como horrível prática de governo". Uma vez mais, são as perguntas e não as respostas a chave para a interpretação deste período histórico. Enfrentar os como, os de que maneira, os caminhos da técnica são os desafios de quem se debruça sobre este momento na história contemporânea. Que tenhamos sempre um guia seguro como este livro para suscitar estas questões mobilizadoras! 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Negação, de Deborah E. Lipstadt

  Imagine ter que provar que o Holocausto existiu, nas barras dos tribunais. Esta é a história real contada neste livro e em um filme de igual nome lançado há algum tempo. O livro narra o embate que colocou frente à frente David Irving, um dos maiores especialistas em algumas temáticas da Segunda Guerra Mundial e a professora Deborah E. Lipstadt, docente de Judaísmo Moderno e diretora do Institute for Jewish Studies, da Universidade Emory. O que estava em jogo neste julgamento que aconteceu na Inglaterra - onde, pasmem, o réu precisa apresentar as provas daquilo que escreveu - era não apenas se o texto da professora Lipstadt que tratava do Holocausto era real mas também sobre o movimento negacionista desse acontecimento histórico. Ao longo do século XX, em várias ocasiões o negacionismo, ou seja, o movimento que afirmava que o Holocausto não teria ocorrido, mostrara sua face. O processo que colocava frente a frente os dois professores era também, de certa forma, uma avaliação sobre um acontecimento histórico e sua representatividade ao longo do tempo! Testemunhas foram convocadas para depor a favor de Irving e de Deborah, o que transformou o tribunal numa espécie de sala de debates de estudos europeus sobre a solução final. Por horas a fio, grandes nomes da historiografia da Endlösung como Christopher Browning e Richard Evans discutiram com David Irving ponto a ponto das estratégias dos alemães para o assassínio bem como desmontaram sua versão sobre os fatos. O veredito do juiz, transcrito pela vitoriosa professora, deixa claro o peso que o relato dos peritos no tema teve para balizar a decisão: "O tratamento dispensado por Irving às provas históricas é tão perverso e flagrante que se torna difícil aceitar que sejam inadvertências de sua parte. (...) Ele deliberadamente perverteu as provas para adequá-las às suas convicções políticas". A vitória de Lipstadt no processo longe simboliza uma condenação severa aos negacionistas. Contudo, na contemporaneidade, não se pode esquecer que um terço das pessoas dizem nunca ter ouvido falar neste tema. Por isso, guardar os relatos dos sobreviventes e retomar as temáticas referentes à este período histórico são fundamentais para que, ainda que reste apenas um testemunho, como disse certa vez o historiador italiano Carlo Ginzburg, possamos restabelecer os indícios que dão conta de uma das páginas mais perturbadoras da história contemporânea.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

A direita toma o poder, de William Sheridan Allen

 Publicado pela Editora Saga, do Rio de Janeiro, em 1969, o livro de William Sheridan Allen, jovem  historiador americano, tratava de um assunto deverasmente interessante. Ao invés de buscar as raízes do nazismo nos grandes centros da Alemanha ou mesmo de pensar como o país se rendera a Hitler, a ideia era tentar compreender como se deu o processo de ascensão do nacional-socialismo um uma cidade de pequeno porte, que o autor nomeou, ficticiamente, de Thalburg. As fontes utilizadas por ele vão desde entrevistas com moradores da cidade como dados estatísticos além da imprensa periódica local e regional. O livro foi dividido em duas partes: a primeira, A morte da democracia (janeiro de 1930 a janeiro de 1933); a segunda, Introduzindo a ditadura (janeiro de 1933 a janeiro de 1935). A morte da democracia evidencia como os alemães foram cedendo espaço em temas fundamentais para a sustentação do regime democrático às práticas nazistas. Inaceitáveis na teoria, elas passaram a contar com a anuência tácita das autoridades locais e regionais, o que contribuiu para o crescimento exponencial do movimento naquela cidade. O autor demonstra os efeitos da depressão oriunda das crises da década de 1920 e suas consequencias para a política do KPD (Kommunistiche Partei Deutschlands) e do SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands) além de apresentar como, aos poucos, os agitadores nazistas conseguem roubar as bandeiras dos demais partidos e impor sua visão de mundo. Em uma cidade de 10 mil habitantes ganha destaque, ainda, a forte penetração da ideologia nazista no campo religioso, com ampla maioria de luteranos. Muitos pastores esposam o nazismo como forma de recusar o comunismo ateu e outras ideologias que não davam conta do anseio nacionalista. A segunda parte apresenta ao leitor os mecanismos construídos pelos nazistas para reorganizar a sociedade alemã de acordo com os princípios estabelecidos por Hitler. Além de deixar claro que os espaços para o contraditório foram amplamente atacados e arrasados, o autor destaca como o regime mobilizou a imprensa escrita para este fim. Como uma das fontes utilizadas por William Sheridan Allen é o jornal, ele consegue evidenciar estas alterações de maneira bastante contundente e clara. Ele lembra, neste caso, que "os nazistas se aproveitavam do fato de que aquilo que o homem acredita é mais importante do que o que realmente acontece". Uma outra contribuição essencial da obra de Allen é explicar ao leitor como a Gleichschaltung foi aplicada, na prática. Eliminar todas as antigas organizações de classe que existiam antes da chegada do nazismo ao poder foi uma das estratégias utilizadas pelos novos mandatários que, em seis meses, destruíram todas elas e criaram outras, nacional-socialistas, às quais todos deveriam fazer parte. O autor destaca que "nenhuma das medidas nazistas nos primeiros seis meses do Terceiro Reich teve efeito final maior que a Gleichschaltung" e que o resultado eram os "thalburguenses transformados na espécie de massa desorganizada que os ditadores adoram". Ao elaborar o roteiro dos ataques nazistas às organizações de classe, o autor mostra, por exemplo, como uma delas, a dos professores, foi cooptada para os fins pedagógicos da ideologia na escola. A obra traça um panorama completo não apenas da violência imposta aos opositores mas também da vibração dos moradores com os resultados econômicos positivos dos primeiros anos do regime. Ao final, Allen deixa uma mensagem que compartilho com vocês: "O problema do nazismo era primariamente um problema de percepção. A este respeito, as dificuldades de Thalburg, e o destino de Thalburg deverão possivelmente ser compartilhados por outros  homens, em outras cidades, nas mesmas circunstâncias. O remédio não será encontrado facilmente". 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

As Benevolentes, de Jonathan Littell


Um livro arrebatador. Escrito em primeira pessoa, a obra desperta várias emoções nos leitores. Do ódio extremo ao nojo absoluto. As comparações com o livro de Tolstoi, Guerra e Paz, fazem todo sentido pois que aqui é possível acompanhar todo o desenrolar do conflito teuto-soviético entre os anos 1941 e 1945 do século passado. Trata-se de acompanhar, portanto, não apenas as estratégias da Wehrmacht para a invasão e ocupação da URSS. Mas, principalmente, de vislumbrar, a partir de um ponto de vista inédito, a perpretação dos crimes contra a humanidade efetuados pelos alemães em suas ações circunscritas na Endlösung, ou solução final do problema judaico no leste europeu. Os capítulos tem títulos que evocam música e esses ritmos se misturam às sensações que os leitores experimentam ao longo das quase novecentas páginas do livro. É certamente uma leitura essencial para todos os que se debruçam sobre o tema da guerra pois permite que reflita-se sobre os inúmeros casos de alemães que vivenciaram semelhante destino ou tiveram igual sorte. Riquíssima é também não apenas as descrições dos ambientes e das cidades elaborados pelo autor mas também as características psicológicas dos personagens e seus sofrimentos diante da guerra. Max Aue, personagem principal, foi construído magistralmente por Jonathan Littell e suas revelações ao longo do livro explicitam os embates morais de parte da humanidade envolvida nas trevas de um conflito que parecia sem fim. No limite, em diversas ocasiões, fica nítido como a guerra não poupa ninguém e que, incontáveis vezes, é apenas a sorte quem coloca a pessoa certa no lugar certo. Um percurso permeado por descobertas, do início ao fim, a obra termina por arrancar o leitor de um possível final clichê para o oposto disso: uma inflexão moral sem precedentes. É um livro aterrador e arrebatador. Uma leitura que merece ser feita lentamente para que tentemos refletir sobre tudo o que esse homem da SS tem a dizer. Dura lição do século XX aos amantes do progresso e da paz!

quinta-feira, 16 de abril de 2020

The new faces of fascism: populism and the far right, de Enzo Traverso

Em breve, comentários sobre esta obra de Enzo Traverso!

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Terceiro Reich: na história e na memória, de Richard J. Evans

A obra em questão, publicada no Brasil em 2018, é uma ótima oportunidade de aprendizado para todos aqueles que se interessam pela temática da Segunda Guerra Mundial e da experiência nacional-socialista, em particular. O historiador inglês Richard J. Evans, dono de uma vasta gama de livros sobre o assunto, pontua nesta ocasião, diversos conceitos e viradas historiográficas que ocorreram ao longo do período pós-Segunda Guerra. O autor dividiu a obra em sete capítulos e cada  um deles possui uma série de outras subdivisões que apresentam as observações de Evans sobre os assuntos mais variados tais como: a economia alemã, a solução final e a produção do Fusca dentre outros. O maior valor do livro, todavia, não reside na variedade das temáticas mas sim nas atualizações historiográficas que o autor avalia e discute. Temas como Zustimmungsdiktatur (ditadura por consenso) e a Volksgemeinschat (comunidade do povo), para dar apenas um exemplo, são expostos e debatidos com base nas leituras de Evans dos autores mais expressivos. O autor não se furta a criticar, todavia, com veemência os trabalhos de seus colegas da academia, como fez com o odioso trabalho de Daniel J. Goldhagen (Os carrascos voluntários de Hitler, 1997) e, para surpresa de muitos, de Timothy Snyder (Terras de sangue: a Europa entre Hitler e Stalin, 2012). Seja apontando as generalizações, as dubiedades ou, ainda, o desconhecimento de alguns autores sobre a historiografia de língua inglesa sobre determinado assunto, Evans não teme polêmicas e atua com bastante rigor em suas críticas, sempre muito pertinentes e fundamentadas. Uma decepção é o tratamento da questão da memória, pouco presente nos capítulos do livro e destacada na capa. Essa ausência resulta em perda muito maior quando se imagina o que um historiador como Evans poderia propor ao analisar um tema dessa natureza embasado nas discussões historiográficas que ocorreram ao longo do tempo! Entretanto, trata-se de uma obra muito interessante que, ao longo de suas quase 500 páginas, discorre sobre os temas mais debatidos na historiografia com rigorosa e densa análise. É praticamente um Reader daqueles que o leitor encontrava uma bibliografia comentada sobre algum grande tema. E valerá muito à pena consultá-lo, sempre! 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A eterna encruzilhada brasileira: autoritarismo, totalitarismo e democracia, de Leonardo Dallacqua de Carvalho e Luiz Alves A. Neto (orgs), 2019.



Publicada em 2019, a obra coletiva organizada por Leonardo Dallacqua e Luiz Alves Neto conta com a participação de vários autores que se propõem a pensar o autoritarismo, o totalitarismo e a democracia nos mais distintos campos de pensamento e atuação. Participo deste esforço com um capítulo onde procuro demonstrar como Mário Graciotti confeccionava o periódico Inteligência, cuja inspiração ele havia buscado em uma revista francesa que circulava em São Paulo, a Le Mois. A obra pode ser encontrada aqui: 

Inteligência: representações do cenário internacional e seus reflexos no Brasil 1935-1941, meu mesmo.



Fruto da pesquisa de doutorado, a obra analisa a trajetória do mensário paulistano Inteligência: mensário da opinião mundial e o insere no campo de estudos da história da imprensa no Brasil. Perpassando o cenário político (inter)nacional, o autor discorre sobre o trabalho editorial de Mário Graciotti, jornalista nascido em São Paulo no final do século XIX e que atuou em várias frentes da direita brasileira nos conturbados anos 1930-1940.







A invenção dos Direitos Humanos: uma história

Nos tempos coléricos que ora atravessamos, o próprio título do livro já causaria pavor em muitos cidadãos brasileiros. Esta sensação nasce, todavia, da ignorância daqueles que relacionam os Direitos Humanos à proteção de criminosos. Nada mais incoerente! Fruto de uma meticulosa pesquisa da historiadora norte-americana Lynn Hunt, cuja obra os pesquisadores brasileiros conhecem há anos, o livro responde à uma necessidade real do presente: debater e, principalmente, explicar sobre o contexto no qual tais garantias foram consideradas essenciais para o desenvolvimento da humanidade em geral. 


Depois da queda: o fracasso do comunismo e o futuro do socialismo, de Robin Blackburn (org).

Para os historiadores brasileiros, é sintomático que recentemente o comunismo tenha angariado tantos detratores em pleno século XXI. Envenenado pelo cenário de polarização política experimentado nos últimos anos por herdeiros deste embate ideológico da centúria passada, o debate acerca da política comunista e das características deste regime foram trazidos novamente à tona. Para tentar compreender este momento de ruptura, buscamos a leitura desta obra que conta com grandes nomes de pesquisadores e intelectuais que se propuseram, no meio do furação que representou o fim da experiência comunista na URSS e países satélites do leste europeu, analisar a conjuntura e as consequências que aquele fato traria para o futuro da humanidade e para o horizonte de expectativas políticas de uma grande parte da população mundial. Os textos foram escritos no calor da hora o que, todavia, não retira deles a densidade das análises propostas por nomes como Norberto Bobbio, Frederic Jameson e Eric Hobsbawm. Deste último, destacamos um excerto para demonstrar como este pensador do "breve século XX" refletiu sobre os desafios do futuro: "o que podemos dizer do vigésimo primeiro é que terá de enfrentar pelo menos três problemas, que estão piorando: o crescente alargamento da distância entre o mundo rico e o pobre (e provavelmente dentro do mundo rico, entre os seus ricos e seus pobres); a ascensão do racismo e da xenofobia; e a crise ecológica do globo que nos afetará a todos". O livro é uma ótima oportunidade para aprender como foi ocorreu o fracasso do comunismo em meio à uma batalha de propagandas, armas e tecnologias que transformaram o mundo no período pós-Segunda Guerra Mundial. As contribuições dos autores permitem ao leitor passar de uma rede de fake news e estigmas políticos que grassam aos borbotões na contemporaneidade a uma compreensão real dos fenômenos que contribuíram para a decadência do comunismo. Mas e o socialismo? É também Hobsbawm que renova as esperanças de um "renascimento das cinzas" do socialismo no futuro. Para ele, no capítulo de encerramento da obra, os socialistas sempre defenderam uma outra sociedade, aquela que "não é apenas capaz de salvar a humanidade de um sistema produtivo que escapou ao controle, mas uma sociedade em que as pessoas possam viver vidas dignas de seres humanos: não apenas no conforto, mas juntos e com dignidade. É por esse motivo que os socialismo ainda tem um programa 150 anos após o manifesto de Marx e Engels".

domingo, 27 de agosto de 2017

Roberto Stefan Foa and Yascha Mounk detalham, no artigo The Danger of Deconsolidation, os acontecimentos relacionados às alterações na percepção e na defesa dos ideias associados às democracias ocidentais. A leitura do minucioso trabalho dos pesquisadores, não deixa de ser um alerta tenebroso dos tempos coevos. A partir de gráficos e de entrevistas, ambos apresentam um cenário de declínio da representatividade e da liderança deste tipo de governo no Ocidente. Ao introduzir o assunto, os autores recordam que antes da queda da URSS ninguém, nem o mais atento analista das relações internacionais, apostaria num colapso tão dramático como o soviético. A analogia está lançada: estaria o regime democrático que vicejou no mundo ocidental do pós-Segunda Guerra Mundial ameaçado? Em caso positivo, qual seria esta ameaça? Na Europa e nos Estados Unidos os líderes políticos perderam muito de seu prestígio e, a partir dos anos 80, aumentam exponencialmente o número daqueles que defendem ações cada vez mais autoritárias e, sobretudo, desvinculadas de personagens que façam parte do campo político. Surgem, desta maneira, os perfis "apolíticos", de personagens cada vez mais sombrios, como foi o caso de Donald Trump, por exemplo. Houve alterações significativas na maneira como os jovens se relacionam com a política ao longo do tempo. Entre os anos 80 e 90, os valores democráticos eram entendidos como pilares da vida norte-americana. Hoje, todavia, são os jovens que alimentam discursos cada vez mais virulentos e de ódio. Roberto Stefan e Yascha Mounk enumeram três características chave para compreender o grau de consolidação de uma democracia: o apoio popular para este sistema de governo; a falta de partidos que o minem e a aceitação das regras democráticas. Para eles, em um mundo onde há um apoio fervoroso à democracia, onde partidos que são contra o sistema são marginais ou inexistentes e há um respeito pelas forças que regulam o jogo político, o colapso desta forma de governar dificilmente ocorre. Entretanto, concluem eles, o mundo contemporâneo em nada se parece com esta descrição. Portanto, é preciso que os cientistas políticos analisem a conjuntura atual de modo a compreender em que lugares esta "desconsolidação democrática" está acontecendo afim de não repetir os equívocos interpretativos de 1989-1991. No caso brasileiro, os inúmeros escândalos de corrupção, a orquestração do golpe de 2016 e o surgimento de personagens alheios ao universo político ou, ainda, de candidatos às eleições de 2018 cuja plataforma assemelha-se a um retorno aos piores momentos da trajetória política do país, guarda muitas semelhanças aos processos descritos pelos autores como desagregadores do sistema. A jovem democracia brasileira e sua Constituição Cidadã de 1988 são vítimas de constantes ataques nas mídias sociais e no Congresso Nacional. Inúmeras personalidades já se referiram ao regime democrático brasileiro como um dos mais sólidos do continente. Aqui, este era um sistema de governo consolidado por meio do respeito às eleições diretas e livres. Ao que tudo indica, esta tessitura foi rompida no ano passado e hoje o país vive o ocaso de "uma democracia sem povo", como destacou recente artigo do jornal El pais.

sábado, 4 de fevereiro de 2017







O novo livro de Robert Darnton, lançado no Brasil em abril de 2016 pela Companhia das Letras, tem muito a acrescentar ao debate historiográfico sobre a censura. Em primeiro lugar, destaque-se que a temática sempre remete à articulações com a ditadura e demais regimes autoritários como característica e prova da violência aos direitos fundamentais dos cidadãos erigidos durante e combatidos pelos inimigos da Revolução Francesa. Todavia, Darnton demonstra que além de balizar e matizar a censura é também necessário entender seu funcionamento e suas práticas. O resultado dessa assombrosa pesquisa é uma obra em que o leitor acompanha o trabalho do censor pari passu com as consequências para escritores e leitores. Os cenários são os mais distintos possíveis: a França dos Bourbons, a Índia britânica e a Alemanha Oriental. Por todos eles perpassam os tentáculos do Estado cuja preocupação com a publicação de obras contrárias aos governantes ou mesmo ofensivas à moral mobilizavam imenso contingente de censores. Leituras, prisões, averiguações, investigações, foram processos que, ao longo do tempo, se fizeram presentes nos lugares pesquisados pelo autor. A leitura da obra de Darnton além de enriquecer a compreensão sobre uma problemática tão complexa instiga reflexões sobre esta mesma questão no Brasil, onde as relações entre imprensa e Estado foram muito conturbadas. Trata-se, como se pode notar, de uma obra muito valiosa não apenas para pesquisadores que se debruçam sobre a galáxia de Gutenberg mas também para o público não especializado que pretende conhecer um pouco mais da história da França, da Índia e da Alemanha e de suas idiossincrasias.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015



O novo livro organizado por mim e pelo querido amigo Rodolfo Fiorucci está na base SUDOC, da França. Ela reúne mais de dez milhões de obras e documentos daquele país e do mundo todo. 


http://www.sudoc.abes.fr/DB=2.1/SET=2/TTL=3/PRS=HOL/SHW?FRST=3


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Costumes em comum. Estudos sobre a cultura popular tradicional, de E. P. Thompson

Esta obra é, indubitavelmente, um dos maiores clássicos da historiografia contemporânea. Inúmeras vezes, lendo artigos, revistas ou mesmo outras obras, me deparava com o livro do historiador britânico E. P. Thompson. Resolvi que já era tempo de conhecer o volume como um todo e fugir da tentação de ler fragmentos cujos títulos me pareciam mais aprazíveis. Em primeiro lugar, trata-se de um livro muito bem escrito e embasado em extensa pesquisa bibliográfica e de fontes. Os temas foram divididos em 08 capítulos sendo destaque, no meu ponto de vista, os intitulados "Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial" e "A venda de esposas". No primeiro deles, Thompson demonstra como a fábrica rompe com a estética e com a compreensão que as pessoas possuíam acerca do tempo e do espaço. No outro, demonstra a prática de venda de esposas na Inglaterra, fato que chocava os vizinhos franceses. Concomitantemente, o autor consegue escrever sobre um tema eminentemente econômico e outro que passa pelas vias da cultura dos cidadãos britânicos daquele período. O livro de E. P. Thompson conta ainda com uma galeria de imagens que servem para ilustrar as temáticas explanadas pelo historiador. Um livro para aqueles que desejam aprender um pouco mais sobre o universo fabril mas também sobre rituais musicais e venda de esposas. Leitura essencial para conhecer melhor as dinâmicas deste período revolucionário.

Forjando a democracia: a história da esquerda na Europa, 1850-2000, de Geoff Eley.

O livro do historiador britânico Geoff Eley é um daqueles trabalhos que refletem anos de pesquisa e dedicação a um mesmo tema. Escrito ao longo de 20 anos, a obra que versa sobre a evolução da esquerda na Europa foi apresentada ao público brasileiro pela Fundação Perseu Abramo, em 2005. Composta de 27 capítulos que se desdobram pelas 766 páginas, a obra apresenta o panorama das lutas, derrotas e conquistas dos movimentos de esquerda ao longo do tempo. O autor se dedica a destrinchar as lutas intestinas entre socialistas, comunistas e anarquistas além de traçar um cenário sobre a lenta emancipação das mulheres, desde o universo das fábricas até o terreno da política. De acordo com ele, os movimentos de esquerda tiveram um papel fundamental nas conquistas de direitos além de representar um arauto de defesa da democracia. Geoff Eley não contorna o fantasma do stalinismo que, para muitos, representa terreno nebuloso da história do movimento comunista. Pelo contrário, aponta os crimes cometidos por Stalin e seus asseclas e demonstra como este período parece desviar a trajetória do comunismo por uma senda que não era a dele. A descrição dos embates contra fascismo e nazismo ao longo das décadas de 1930 e 1940 constituem pontos fortes da obra, muito bem fundamentada no que diz respeito à historiografia e às fontes. Aliás, neste último aspecto, o leitor encontrará uma densa e longa lista de obras para consultar, caso seja instigado a se aprofundar em alguma temática. Para o estudioso dos movimentos de esquerda e para aqueles que desejam compreender melhor o período esta obra parece ser uma excelente companheira.

Uma tragédia francesa, de Tzvetan Todorov.

O livro de Tzvetan Todorov, "Uma tragédia francesa" foi lançado no Brasil pela Editora Record em 1997. Trata-se de uma obra interessantíssima em que o famoso escritor delineia minuciosamente o período que se segue à invasão da Europa pelas forças aliadas em junho de 1944, conhecido como dia D. O desembarque na Normandia desencadeou uma série de levantes populares contra as forças de ocupação que, em retirada, vingavam-se da população indiscriminadamente. Todavia, a história sobre a qual Todorov se debruça é ainda mais pungente porque ocorre em uma pequena cidade do interior, longe, portanto, do epicentro dos acontecimentos. Saint-Amand Montrond é uma vila onde residiam cerca de 10.000 habitantes, localizada no coração da França. Os moradores de Saint-Armand que pertencem à resistência francesa entenderam que deveriam rebelar-se contra as forças de ocupação imediatamente após a invasão do continente pelos Aliados. A partir de então, uma série de ações são tomadas e resultam em uma tragédia que envolve vítimas da sociedade civil. Mulheres, crianças e judeus da cidade foram vítimas dos alemães bem como alguns colaboracionistas, enforcados pelos combatentes. Na conclusão, Todorov presta uma homenagem àqueles que de uma maneira menos direta terminam por fazer o bem a seu semelhante: "Nos grandes momentos da história, os heróis são necessários à pátria. Mas é ao longo de toda a sua existência que as comunidades humanas têm necessidade de portadores dessas virtudes humildes e cotidianas. E é a presença deles, na trágica história da libertação de Saint-Amand, que lança algumas luzes de esperança".

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Banheiro!

Já que decidi escrever não vou furtar-me o direito de tratar das questões mais intestinas da estada por aqui. Estamos acostumados, no Brasil, com uma série de procedimentos para ir ao banheiro público. No caso francês, chamaram a minha atenção duas coisas: a limpeza e a ausência de um personagem chave de qualquer banheiro: o lixinho. Ao me deparar com a situação, pela primeira vez, pensei que o funcionário poderia ter esquecido de colocar lá de volta...mas fui olhando em todos e, sistematicamente, nada! Daí, ao chegar em casa e comentar com o proprietário do apartamento ele me explicou que aqui na França as pessoas são ensinadas a jogar o papel direto na privada! Os canos são não sei de largura e tudo e tal...então, modo França ligado, vamos esquecer os infinitos avisos pregados em todos os banheiros públicos do Brasil que clamam para que não façamos isso! #voilà